Nota .: Conto Escrito na Gazeta de Noticias em 1881.
Este conto é um diálogo que se dá entre pai e filho, após o jantar comemorativo de 21 anos deste. Estando os dois a sós, o pai aconselha ao filho tornar-se um Medalhão, ou seja, alguém que conseguiu conquistar riqueza e fama. Ele passa, então, a tecer uma teoria de como o filho conseguiria isso, aconselhando-o a mudar seus hábitos e costumes, anulando seus gostos e opiniões pessoais. O filho deveria sempre se manter neutro perante tudo, possuir um vocabulário limitado e conhecer pouco, e sempre preferir um humor mais simples e direto ao invés da ironia, que requeria certo raciocínio e construção imaginativa. Após muitos outros conselhos, o pai termina a conversa admitindo que suas palavras têm certa semelhança com a obra "O Príncipe", de Maquiavel, e diz para o filho ir dormir.
No conto, "Teoria do Medalhão", Machado de Assis faz uma análise do comportamento de alguns membros da sociedade. Descreve-os de maneira extremamente clara, precisa, com um humor recatado, ironizando-os usando como pano de fundo uma conversa "inocente" como a de um pai com um filho.
O conteúdo da conversa é sobre o futuro do filho. O pai aconselha-o a "profissão" de medalhão, para assegurar que seu esforço durante a vida será recompensado de alguma forma. "Profissão" porque não é um ofício real, braçal ou intelectual, mas um ofício social, cujo pagamento é ser reconhecido pela sociedade.Para exercer este ofício deve-se estar sempre bem informado, parecer ser culto e freqüentar festas e lugares onde ficará exposto ao público. Todo conhecimento que tiver ou adquirir, não deve ter aplicação prática. Mas, principalmente um medalhão não deve formular nenhuma idéia nova, pois assim existe o risco de discordar de alguém, o que é contra os princípios do ofício em questão. Sendo assim, então, uma pessoa que se destaca por certas qualidades que dá a entender que tem mas, na verdade não as tem. O autor enfatiza que os medalhões estão na política mas também hoje encontram-se na mídia os que posso chamar de " marketeiros", pessoas que tem uma imagem exclusivamente fruto do marketing que fazem sobre si mesma, e assim enraízam nas mentalidades de outrem o que desejam que as outras pessoas pensem delas, como modelos, pessoas que posam nuas em revistas, participantes de reality shows e até mesmo apresentadores de televisão; Estam em toda parte, podem ser os medalhões da época do conto ou então como diria Lima Barreto, "os que falam javanês" hoje.
É claro que uma pessoa não pode viver somente deste "ofício", não pode viver de fama (bem, seria uma questão a ser pensada, talvez possa se viver de fama, mas não é disso que se trata o texto), essa seria uma profissão paralela, somente para ser uma pessoa cotada e benquista na sociedade, esta teria o seu sustento com uma profissão como qualquer um que ainda está na luta.
Diante de tudo isso, pode se ver o texto como um tipo de "parábola" em que o autor dá a "receita" mostrando o que não deve ser feito, se quisermos construir uma sociedade em que possamos mudá-la, questioná-la, avançar (intelectualmente), e também sabermos identificar os medalhões para que não possam nos manipular.
Análise:
Este conto trabalha basicamente as mesmas ideias tratadas em “O Espelho”, com a aniquilação do indivíduo em favor de uma imagem e posição social considerada privilegiada. Também encontra paralelo no conto “O segredo do Bonzo”, onde a propaganda pessoal e a aparência valem muito mais do que a essência. Através da fala absolutamente irônica do pai, entrevê-se a dura crítica de Machado de Assis à sociedade brasileira. De um lado, temos um pai que deseja ver seus ideais frustrados realizados pelo filho; e de outro temos o filho que aceita passivamente todas as imposições do pai, pois é o papel social que cabe ao filho.

